Entrevista com ROSA ÍGNEA por Bob Riot - 30/04/2007
Fotos: Divulgação

STRIKE: O Rosa Ígnea foi formado por base de outra banda. A idéia de se utilizar vocais líricos já vinha desta época ou aconteceu ao acaso?

ROSA ÍGNEA: Na outra banda trabalhávamos com vocais masculinos e fazíamos apenas covers, quando já tínhamos algumas músicas prontas vieram as naturais dificuldades de opinião entre membros e pensamos em partir para um projeto diferente, mantendo a banda anterior e fundando o Rosa Ígnea, que já surgiu com a proposta de vocais femininos.

STRIKE: Vocês não tem medo de serem muito comparados à outra(s) banda(s) por esta influência? Afinal, qual a verdadeira influência sonora do Rosa Ígnea?

ROSA ÍGNEA: As comparações são inevitáveis e as influências sempre existem em qualquer estilo. Mas consideramos apenas influências, inclusive temos notado que as pessoas já estão identificando o "estilo" Rosa Ígnea, o que é normal, uma vez que todos têm vivências diferenciadas e o produto final acaba sendo ditado por estas vivências. Nós não procuramos esta diferenciação e nem procuramos nos igualar aos outros. Achamos que a diferenciação é um processo natural. Nossos fãs já puderam percebê-la no primeiro CD e isto ficará cada vez mais evidente com os novos trabalhos.

STRIKE: Como surgiu a parceria com a Erpland Records? Vocês já estavam com tudo produzido, qual a vantagem para o grupo? Menos preocupação com a distribuição e divulgação?

ROSA ÍGNEA: Com certeza desde o começo a idéia era fazer o melhor possível dentro das escassas possibilidades, sempre falta grana, e com o produto em mãos buscar algum auxílio. Não queríamos fazer intermináveis “demos”. Queríamos mostrar que somos capazes de fazer mais de duas ou três músicas. O Rodrigo, proprietário do selo, viu o nosso CD em uma loja da Galeria do Rock (BH) e nos procurou, foi um caso de simpatia mútua à primeira vista. A sua ajuda está sendo muito importante e com certeza se refletirá em nosso segundo trabalho, que já está a caminho.

STRIKE: A maioria do pessoal da banda ou tem formação universitária ou está estudando. Todos estão seguindo para uma profissão paralela à de músico, como o tempo a necessidade de se sustentar financeiramente pode fazer diferença e fazer alguns membros trilharem outros caminhos?

ROSA ÍGNEA: Esperamos conseguir fazer com que isto não aconteça, e que todos trilhem o caminho que planejamos para a banda. Sabemos da dificuldade deste meio no Brasil, mas estamos buscando algo maior. Temos a convicção que temos qualidade, estamos conquistando espaço aos poucos, mas sentimos que esta conquista está vindo com firmeza. Podemos crescer muito ainda e esperamos que isto aconteça. Se alguém não aposta e acredita no seu trabalho será o momento de desistir e este não é o nosso caso. Só o futuro dirá.

 

STRIKE: Na opinião de vocês até que ponto pode se objetivar a busca de um sonho? Principalmente falando-se de heavy metal, que é um gênero musical sem divulgação nos grandes meios de comunicação.

ROSA ÍGNEA: É como dissemos, sabemos que o metal no Brasil tem estas dificuldades e aliás, o que é que não tem? Apenas coisas de péssima qualidade que são embutidas na cabeça do povo em troca de dinheiro fácil e rápido. Qualquer coisa de boa qualidade neste país tem sempre as mesmas dificuldades, e olhe que não é só o metal de boa qualidade, são todos os estilos onde existe um trabalho sério. Mesmo em outras áreas, quem ganha dinheiro no Brasil? Políticos, religiosos desonestos, policiais e juízes corruptos, bandidos e uns poucos jogadores de futebol. Então o que resta é nunca abandonar um sonho, alguns já trilharam este caminho e conseguiram, logo é possível. Temos uma linha clara e objetivos bem definidos, trabalhamos dentro disto, conhecendo as dificuldades e sabendo que o processo pode ser bem lento, mas deve ser seguido com firmeza.

STRIKE: O Rosa Ígnea tem uma grande preocupação com as mensagens das letras assim como outras bandas. A tradução das letras nos encartes dos discos encareceria as produções. Até que ponto a importância com a parte instrumental, ultrapassa a mensagem das letras na música do grupo. Colocar as letras traduzidas, pelo menos no site do oficial do grupo (quase todos os grupos atualmente tem endereço eletrônico) não ajudaria?

ROSA ÍGNEA: Nunca nos ocorreu a hipótese de colocarmos as traduções no encarte, não seria o caso de custo, mas simplesmente nem pensamos nisto. Com relação a colocar no site é uma boa idéia, vamos avaliar e quem sabe partir para isto. Falando sobre a importância do instrumental/letras pensamos que uma música é algo maior, o sentimento que ela transmite vem dos dois. De nada adiantaria uma determinada letra ser perfeita se o instrumental não acompanhar a idéia, ou vice-versa. Nas nossas músicas trabalhamos desta forma, todas tem um fundo que nos leva a pensar sobre alguma coisa além do terreno e habitual. É claro que já ouvimos várias músicas onde é melhor não prestar muita atenção na letra, é preferível ficar só com o instrumental. (risos)

STRIKE: O que o grupo vê no horizonte? Um caminho de árduo trabalho, às vezes, sem recompensa, ou, um futuro com vitórias? Como está sendo aceito o primeiro trabalho do grupo e os shows? Quais são os objetivos atuais da banda?

ROSA ÍGNEA: Para sermos bem claros sabemos que por hora é um caminho árduo e quase sem recompensa. As dificuldades são enormes, poucos shows, produtores querendo que se pague para tocar ou que se toque de graça, condições péssimas em vários locais, principalmente de estrutura. Com dinheiro tudo é fácil, como nós não temos nos resta apostar na qualidade mesmo. Sabemos que assim que conseguirmos chegar onde queremos isto vai mudar e isto só pode ser alcançado com o reconhecimento do público em geral. A grande recompensa no momento é somente no nível pessoal, é a satisfação de saber que o trabalho está agradando e que cada vez mais pessoas nos mostram isto. Estamos muito satisfeitos com a repercussão do nosso primeiro trabalho e a receptividade do público nos shows. É claro que não há como agradar a todo mundo, o que é normal, mesmo porque os gostos às vezes são conflitantes, mas é como se diz, importantes são as pessoas que gostam da gente, é para elas que dedicamos o nosso trabalho, o resto não tem importância. Temos como objetivo começar a nos apresentar no interior de Minas e em outros estados, principalmente em São Paulo, que é o grande centro do estilo no Brasil, estamos esperando convites para shows lá. Para um futuro as apresentações no exterior estão em pauta. Estamos trabalhando na produção de um single/promo e nas músicas para o nosso segundo álbum full.

STRIKE: Num país dominado pelo capitalismo de coisas descartáveis, onde a mídia dá importância ao aqui e agora e faz uma lavagem cerebral nas pessoas. Na opinião de vocês (vocês talvez sejam um exemplo) o que faz uma pessoa gostar e consumir o gênero heavy metal no Brasil?

ROSA ÍGNEA: Esta é boa, muita gente pode não gostar, mas uma coisa temos como clara, as pessoas que gostam de heavy metal são pessoas diferenciadas em relação à grande massa influenciável pela mídia. Normalmente são pessoas que “pensam” (risos), tem opinião própria e estão pouco ligando para as opiniões alheias. Acho que muitos tem a influência de pais que viveram numa época que dizem, foi a melhor para a música em termos de busca de liberdade e criatividade. Jimi Hendrix, Steppenwolf, Bob Dylan, Joan Baez e Janis Joplin, e de outra época, Black Sabbath, Led Zepellin e Deep Purple influenciaram em muito uma geração de pais que trouxeram estas influências para seus filhos.

 

STRIKE: Rosa Ígnea é um nome diferente. Como foi escolhido o nome? Porque um nome em português já que as composições são todas em inglês?

ROSA ÍGNEA: Quando pensamos em partir para um projeto fora da banda que já tínhamos ainda não existia um nome e estávamos à procura de um nome que tivesse algum significado real dentro da nossa proposta. O Richard propôs o nome Rosa Ígnea baseado num livro de ocultismo escrito na década de 50. Este livro tem muito da nossa proposta inicial de trabalho, enquanto temas de nossas letras. O nome agradou a todos e ficamos assim.

STRIKE: Vocês estão tendo divulgação em sites estrangeiros. Como está a aceitação da imprensa especializada lá fora? Planos para tocar fora do Brasil?

ROSA ÍGNEA – Após lançarmos o nosso "Ancient Eyes", divulgamos algumas músicas no MySpace e isto atraiu a atenção de vários sites no exterior para nós. Saíram algumas publicações de reviews, todos favoráveis e com isto as visitas ao site cresceram e a encomenda de CDs do exterior vieram. Tivemos algumas de nossas músicas exibidas em uma rádio de Portugal, o que nos surpreendeu em um ponto, que consideramos bastante significativo: O produtor desta rádio nos procurou pedindo autorização para tocar nossas músicas, o que jamais aconteceria no Brasil, pois se você quiser que mostrem a sua música em alguma rádio neste país, com certeza vai ter que rolar o famigerado "jabá", por isto entramos novamente naquela velha história, neste país basta dinheiro que você chega lá, não é preciso qualidade, por isto ouvimos o que está por aí na mídia, infelizmente, enquanto boas bandas ficam escondidas nos estúdios e nas garagens.
 

 

STRIKE: Isabela Santos tem formação erudita e prêmios conquistados com esta tipo de música. Como foi a entrada para o heavy metal? O que a motivou a cantar este tipo de música também que para muitos é antagônico?

ROSA ÍGNEA - Isabela: Eu já conhecia a banda através de uma amiga nossa em comum, a Beth Moura, e também sabia que eles estavam sem vocalista para gravar o CD, aí um dia recebi um telefonema da banda e fiquei interessada. Apesar dos meios (erudito e metal) serem diferentes, um complementa o outro. E no Rosa eu não faço o típico vocal lírico das bandas do gênero, a voz na banda é com pouca impostação.

STRIKE: A Strike agradece a entrevista deixando as linhas finais para a mensagem do grupo aos nossos leitores.

ROSA ÍGNEA: Agrademos à Strike pela oportunidade e apoio e para todos que nos ouvem: vocês são pessoas diferenciadas, “pensam”, e por isto são muito importantes para nós. Agradecemos pelo apoio que temos tido neste curto tempo de nossa existência e esperamos estar junto de vocês em qualquer lugar deste país. Um grande abraço.

Web Site: www.rosaignea.com
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